domingo, 10 de abril de 2011

Contos do Reino #9- Dois Cavaleiros Barulhentos

Zacarias 4:6

Então ele me disse: "Esta é a mensagem do Senhor a Zorobabel: 'Não é pela força, nem com poder que vocês vencerão. Será pelo meu Espírito. Vocês, embora poucos e fracos, vencerão pelo meu Espírito.’”

Efésios 4: 11-16

E ele designou alguns para apóstolos, outros para profetas, outros para evangelistas, e outros para pastores e mestres, com o fim de preparar os santos para a obra do ministério, para que o corpo de Cristo seja edificado, até que todos alcancemos a unidade da fé e do conhecimento do Filho de Deus, e cheguemos à maturidade, atingindo a medida da plenitude de Cristo, para que não sejamos mais crianças, levados de um lado para o outro pelas ondas, nem jogados para cá e para lá por todo vento de doutrina e pela astúcia e esperteza de homens que induzem ao erro. Antes, seguindo a verdade em amor, cresçamos em tudo naquele que é a cabeça, Cristo, de quem todo o corpo, ajustado e unido pelo auxílio de todas as juntas, cresce e edifica-se a si mesmo em amor, na medida em que cada parte realiza a sua função.

DOIS CAVALEIROS BARULHENTOS

Havia dois cavaleiros no Grande Parque que pensavam que eram Atalaias. O povo do Reino deu a eles os apelidos de Sr. Abobrinha e Sr. Abobrão e tentavam ser compreensivos; mas o título de cavaleiros já tinha há muito tempo saído de moda.


Sr. Abobrinha era comprido e fino e só enxergava à distância. Ele estava sempre tropeçando em raízes e pedras, porque ele não conseguia ver o perigo que estava perto dele. Sr. Abobrão era redondo e baixo e só enxergava de perto. Ele estava sempre se metendo numa fria, porque forçava a vista para ver o perigo à distância dele.

Os dois cavaleiros estavam sempre freqüentando os conselhos dos Atalaias no Pavilhão dos Atalaias. Ao final de cada encontro, depois que todas as contas já tivessem sido prestadas e todos os contos já reportados, o Atalaia Comandante solicitava para a promessa ao Rei. Ele gritava: "Como vai o mundo?"

E todos respondiam de volta: "O mundo não vai bem! Mas o Reino vem!" Cada Atalaia ¾ homem ou mulher ¾ levantava o seu machado e proferia: "Ao Reino e ao Rei!" E com isso marchavam saindo do pavilhão para pegar seus postos de vigia ou fazer as rondas.

Os dois cavaleiros gritavam essas mesmas declarações. Eles desembainhavam suas espadas dos seus coldres. Eles se ajuntavam em meio ao tumulto da saída do pavilhão e levavam seus cavalos a uma grande rocha. Abobrinha, resmungando e rosnando, empurrava o pesado Abobrão por sua vez para cima da sua sela. E, logo depois, Abobrão, por sua vez, puxaria o desajeitado Abobrinha para sua sela. Freqüentemente um deixava cair uma espada ou bandeira.

"Ô! Ô!" eles gritavam. "Você aí! Você se importaria de pegar a minha espada (ou bandeira)?"

Se ninguém parecia estar por perto, eles gritavam ainda mais forte. Quando ninguém aparecia, um dos cavaleiros teria que desmontar, e daí repetir todo o processo para montar tudo de novo.

Até os dois ficarem finalmente prontos, em cima dos seus cavalos, todos os Atalaias já teriam ido embora, as luzes do pavilhão já teriam sido apagadas; mas, mesmo assim, Abobrão gritava: "Em frente! Seguimos sob a autoridade do Rei!"

Mas, como era de se esperar, eles nunca pareciam encontrar o serviço que procuravam, porque o perigo sempre já tinha se encerrado, quando eles finalmente chegavam à cena.

"O que vale é a tentativa", Sr. Abobrinha lembrou o Sr. Abobrão um dia, quando os dois estavam se sentindo um pouco deprimidos. Eles inventaram uma música para os animar.

Um Atalaia é um Atalaia é um Atalaia

Ele protege o parque de qualquer tipo de gandaia

Seu grito faz todos tremerem

Seu brado faz todos estremecerem

E olha só o que aconteceu, exatamente nesta tarde: eles se defrontaram com o inimigo. Bem, eles pensavam que fosse o inimigo.

"Pare! Quem se aproxima?" gritou Sr. Abobrão. Seus olhos fracos não conseguiram identificar o homem correndo apressadamente pela trilha, mas ele pensou que podia pelo menos enxergar que a figura estava carregando uma arma.

"Pare?" questionou o homem. "Ué, sou eu. O Padeiro". O padeiro Chefe estava vindo da cozinha apressadamente com três pães fresquinhos que saíram do forno naquele momento, e ele ainda os estava equilibrando sobre sua espátula de madeira.

Os dois cavaleiros pensaram que ele tivesse dito, "Pauleiro". Pauleiros eram homens do Encantador, armados com paus, que se escondiam no mato, pelo Parque, prontos para darem pauladas em qualquer um que estivesse descuidado. Todos em Grande Parque ficavam agradecidos, quando Atalaias pegassem esses espiões; então, os cavaleiros tinham visões de glória.

"Vamos te ensinar algumas lições!" gritou Abobrinha e dirigiu seu cavalo até uma ponta da trilha. Abobrão foi tropeçando até a outra ponta e deu meia volta, colocando assim o Padeiro Chefe no meio dos dois.

Os dois cavaleiros colocaram em posição os seus visores. Os dois firmaram suas varas de combate. Os dois cavalos davam patadas no chão e fungaram.

"Avançar!" gritou Abobrão. "Vamos em frente!"

Os dois cavaleiros colocaram na pontaria o pequeno padeiro, que estava carregando com muito cuidado os seus três pães na sua espátula grande de madeira. Entre a miopia de um e o astigmatismo do outro, eles erraram completamente o alvo do adversário e com estilo derrubaram um ao outro das suas selas.

O Padeiro Chefe saiu ileso, mas os seus pães frescos foram pisados na terra.

"Agora eu vou ensinar a vocês algumas lições!" ele gritou, e deu umas pancadas e uns golpes nas suas cabeças com a sua espátula de madeira. Quando foi embora, as armaduras dos dois estavam cheias de entalhos e dentes. Mas Abobrinha e Abobrão sabiam que não deveriam comentar essa aventura infeliz.

Algumas semanas depois, no Dia das Nomeações ¾ quando méritos e medalhas eram dados em reconhecimento para vários Atalaias ¾ os dois cavaleiros chegaram um pouco atrasados para o evento no pavilhão. Eles tinham ficado tão entusiasmados ao ajudarem um ao outro com a armadura que ela tinha ficado enroscadas uma na outra. Até eles se desenroscarem e saírem às presas, eles chegaram ao pavilhão quando já estava tudo escuro. Mesmo assim, queriam dar uma olhadinha.

Estava tudo muito quieto, mais quieto do que qualquer outra vez que eles já tinham ouvido. Alguém estava sentado na frente do pavilhão, na plataforma. Era o Atalaia Comandante.

Quando os dois cavaleiros entraram, o Comandante levantou-se da sua cadeira. "Sr. Abobrinha e Sr. Abobrão, estive esperando por vocês. Uma reclamação foi feita contra os senhores pelo Padeiro Chefe, entre outros. Vocês estão sendo acusados de desfilarem como sendo Atalaias. Venham à frente!"

Os dois cavaleiros andaram até a frente. Clangue! Clongue! As suas armaduras chiavam ao marcharem até a plataforma. Os dois estavam vestidos com grandes penas enfiadas em seus capacetes, as quais eles tinham dado um ao outro para honrar suas condutas de heroísmo e bravura.

"Vocês já receberam qualquer tipo de cicatriz ou ferida por ajudar outros?" O Atalaia Comandante perguntou, muito calmamente. Abobrinha começou a falar da vez em que Abobrão ficou preso na sua armadura enferrujada e ele o tinha socorrido, mas pensou melhor e cortou o que iria falar. Eles balançaram a cabeça que não. Os seus capacetes chacoalharam.

"Vocês já lutaram contra fogo na floresta?" Mesmo que o Comandante não estivesse gritando, a sua voz ecoou no quarto vazio.

Eles, de novo, balançaram as suas cabeças. Sr. Abobrão perdeu o equilíbrio, tropeçou na sua própria bandeira e teve que dar alguns passos.

"Vocês já protegeram Grande Parque dos seus inimigos?"

Sr. Abobrinha gaguejou, "N-n-n-nunca, S-s-senhor", Ele nem queria lembrar-se do problema que tiveram com o Padeiro Chefe.

Mas, era como se ele tivesse lido a mente do cavaleiro, e o Atalaia Comandante apontou o incidente, ele mesmo. "Vocês lutaram contra o Padeiro Chefe, pensando que ele fosse um Pauleiro, mas vocês fizeram isso para buscar glória para vocês mesmos e não para proteger Grande Parque. Vocês queriam ser homenageados como Atalaias, mas sem adquirirem as habilidades de luta, a coragem ou sem se equiparem".

Sr. Abobrão conseguiu recuperar seu equilíbrio. Ele disse: "Senhor, somos muito bons em gritos de Atalaia. Temos composto músicas de batalha".

Os dois cavaleiros ficaram bem retos. Jogaram suas cabeças para trás. Suas penas balançaram e uma caiu até o chão. Eles gritaram:

"Em frente pela Causa!" soltaram um berro.

"Avançar!" bradaram.

"Como vai o mundo?"

Começaram a cantar: "Um Atalaia é um Atalaia é um Atalaia..." Mas o Comandante estava tão quieto, e o pavilhão tão parado, que a música logo desapareceu.

Os olhos do seu líder estavam como faíscas. "Vocês não sabem", ele perguntou sussurrando. (Era o sussurro mais alto que eles já tinham ouvido, e ecoou pelo pavilhão): "sabem-sabem-sabem-sabem".

“Vocês não sabem que o Reino não é barulho e sim poder?"

"Poder-poder-poder-poder". Este eco passou com mais força pelo hall.

O Atalaia Comandante plantou seus pés firmemente na plataforma. Ele levantou seus braços num gesto rápido. "Assim!" gritou o Atalaia Comandante. Um vento começou soprar. Woo-ooo-ooo-oosh! Os cavaleiros se abraçaram para não serem levados pelo vento.

"E assim!" disse o Atalaia Comandante de novo. Luz encheu seu corpo e brilhou como uma tocha pelo salão escuro.

"E assim!"

Kaboom! Um relâmpago estourou. Deu uma trovoada. Momentos depois veio chuva. O vento levantou o pavilhão das suas fundações. Começou a girar e girar em direção das nuvens. Os dois cavaleiros se debateram nas paredes, mas o homem na plataforma ficou em pé parado, resplandecente, seus braços erguidos, seus pés firmes, e seus olhos brilhantes como as estrelas.

Finalmente, o vento acalmou-se e assentou o pavilhão de novo na terra. A chuva parou. Não houve mais relâmpago. O trovão cessou. Tudo estava quieto e o salão ficou complemente escuro de novo.

Deste silêncio veio a voz do Atalaia Comandante: "De hoje em diante, não tomem para si mesmos nomes que vocês não merecem. Vocês não são Atalaias. Vocês não defendem o Reino e nem protegem os desamparados, nem lutam contra o inimigo. Não confundam as proezas de outras pessoas como sendo as suas. Não pensem que palavras são coragem. Podem achar os seus lugares no Reino, mas não finjam ser o que não são".

Tudo estava quieto de novo. O único som era o dos passos do Atalaia Comandante saindo do hall. Os dois cavaleiros ficaram lá, no silêncio, um bom tempo. Era a primeira vez que tomavam conhecimento do poder do silêncio.

Abobrinha e Abobrão nunca mais disseram que eram Atalaias ¾ tão pouco pensaram que eram. Nunca mais foram a caçadas ou rondas e nem ficavam dando o grito dos Atalaias.

Ao invés, eles decidiram viver perto do Portal de Pedras e conduzir passeios de boas-vindas para os recém-chegados ao Grande Parque.

Eles deixavam crianças pequenas andarem nos seus cavalos e as faziam rir e contavam histórias das bravuras dos Atalaias. E se contentaram com seus lugares apropriados no Reino.

E, então, os dois cavaleiros nunca mais se enganaram. Pois, quando alguém vê, ouve e conhece a coisa real, nunca mais confunde barulho com poder.


Obrigada e Have Fun!

sábado, 9 de abril de 2011

Contos do Reino #8- Dia de Avistar

Romanos 2:13

Porque não são os que ouvem a lei que são justos aos olhos de Deus; mas os que obedecem à lei, estes serão declarados justos.

Hebreus 11:6

Sem fé é impossível agradar a Deus, pois quem dele se aproxima precisa crer que Ele existe e que recompensa aqueles que o buscam.

Isaías 53:1-3

Quem acreditou naquilo que nós anunciamos? A quem o Senhor vai revelar o seu poder? Aos olhos de Deus ele era um pequeno ramo, brotando de uma raiz em terra seca. Mas para nós Ele não tinha beleza alguma; não havia nada nEle para nos atrair ou para nos agradar. Nós O desprezamos e rejeitamos: Ele era um Homem que conhecia, por experiência própria a dor e o sofrimento. Achamos que Ele não merecia nem ser olhado por nós; não demos a menor importância a Ele.

DIA DE AVISTAR

Os súditos do Reino trabalhavam duro para manter lindo o Grande Parque. Alguns eram jardineiros; outros eram guardas florestais. Alguns eram agricultores; outros eram especialistas em cuidar de animais; outros eram guias para estrangeiros. E ainda outros curavam. Não importava o quão duro trabalhavam, eles adoravam brincar. E a brincadeira de que as crianças mais gostavam era Achar-O-Rei....


"Eu vi o Rei!" exclamou Amanda, ao entrar com tudo pela porta da cabana de Misericórdia. Duas raposinhas entraram pela porta, atrás dela, brincando e uma bateu na traseira da outra, quando tiveram de parar repentinamente. "Eu vi o Rei no Dia de Avistar!" ela repetiu, orgulhosa do seu sucesso.

"Que legal!" replicou Misericórdia, que tinha acabado de trazer Homem-Que-Senta-Como-Pedra para uma cadeira, perto de uma janela onde o sol entrava. Uma vez sentado, o homem não se mexia. Ele não virava a cabeça. Ele não falava uma palavra. Misericórdia disse que talvez fosse por causa de uma terrível tragédia em sua vida.

O irmão de Herói muitas vezes subia até o colo do homem e dava uns tapinhas nas suas bochechas, mas mesmo assim ele não se mexia. De certa maneira, os dois eram semelhantes. Pequena Criança nunca falava uma palavra sequer e o homem nunca dava risadas. Muitas vezes os dois sentavam-se juntos, quietos à luz do sol.

"Dia de Avistar quer dizer que o Rei tira um tempo para brincar", Amanda disse, virando-se para explicar a Herói, que ainda estava cauteloso quanto a essa menina tão dinâmica.

"As crianças tentam achar o Rei por todo o Grande Parque, no Dia de Avistar", explicou Misericórdia ainda mais. "É um grande jogo de Caça-ao-Rei. Ele aparece com vários disfarces, e uma vez que a criança percebe que viu o Rei, ele pode ir para o campo de treinamento, onde o Rei e as crianças brincam o resto da tarde. Por que você não sai numa caçada, Herói, em busca do Rei?”

Herói balançou a cabeça que não, então Amanda saiu pulando, pela porta, sem ele. Ela ria ao correr, e o menino ficou olhando para as raposas que saíram atrás dela, bem no calcanhar, enquanto desciam a trilha em direção do Bosque Silvestre.

Não tinha jeito. Ele nunca iria "avistar" o Rei. Toda vez que alguém comentava baixinho: "olha o Rei!", Herói só via um mendigo ou lenhador ou agricultor. Nunca um rei.

Misericórdia disse que isso era porque ele não acreditava no rei. "Você precisa crer", ela sempre explicava, "para poder ver". Isso não fazia sentido para Herói. O Encantador tinha dito o oposto: "Ver é crer". Era muito bom e legal para todos os outros em Grande Parque quanto a falar sobre um rei. Mas como que Herói iria saber que não estavam só fazendo uma brincadeira com ele? Ou fazendo de conta?

E, alem do mais, ele não estava muito a fim de brincadeiras assim hoje. Misericórdia tinha dito que um amigo dela iria vir hoje de manhã para ver o seu irmão. Tinha algo de errado com Pequena Criança.

Misericórdia disse que ele já estava na idade de falar e que todas as crianças normais eram cheias de risos. Algo deve ter assustado este pequeno, algo que roubou dele suas palavras e risos.

Herói sabia que era Cidade Encantada. Seu odor podre pairava sobre os corações. Ele se lembrou dos Queimadores acendendo o ataúde no funeral de sua mãe. Ele viu mais uma vez o olhar de horror nos olhos do seu irmão. E agora o menino mais novo não dava risadas, e o menino mais velho não se interessava por brincadeiras.

Ao observar o seu irmão sentar-se silenciosamente no colo do homem imóvel, Herói pensou: Será que o amigo de Misericórdia iria também saber o que fazer por um menino cuja cicatriz na sua pele ia até seu coração?

Herói pensou ouvir alguém falando: "Rei à vista!" mas, ao invés do Rei, um camponês entrou na cabana. Ele estava usando uma camiseta e calças desbotadas. Seu cabelo enrolava-se por debaixo de um velho chapéu de fazendeiro, o qual ele pendurou na entrada ao lado da porta. Ele bateu alegremente no batente. "Onde está o meu amigo?" ele chamou.

Herói pensou que ele estivesse se referindo a Misericórdia; mas, ao invés, a senhora idosa apontou para Pequena Criança, ao lado da janela. "Aqui ele está", ela disse, "o seu amigo está aqui".

O camponês riu. "Eu pensei que meu amigo gostaria de ir comigo hoje. Poderemos ver o sol engordar as uvas. Ou poderemos ouvir as abelhas cantando no jardim. Ou poderemos apostar corrida com os patos no Lago dos Patos." Ele abriu a mão e dentro dela havia um barco feito de madeira de balsa, com pequenas velas e bonequinhos feitos de palha de milho.

O homem deu o brinquedo para a criança que o pegou com delicadeza. De repente, o camponês deu uma pirueta no ar e começou a andar com as mãos, enquanto que os pés estavam para o alto. Herói engoliu de surpresa e Misericórdia deu risadas.

O camponês foi até a porta com os seus pés balançando no ar. "Vamos, amigo, vamos ver os patos!"

Para surpresa de todos, o irmão de Herói desceu do colo do homem que não se mexia. Misericórdia deu para ele o chapéu do homem e ele seguiu essa figura de ponta-cabeça pela porta e desceu a trilha. Herói pensou ouvir o que parecia ser o começo de uma gargalhada infantil.

Herói ficou perto da cabana toda aquela manhã. De certa maneira, ele queria que o camponês o tivesse convidado a ir junto também. Ele cortou lenha para a lareira, tomando bastante cuidado para não se aproximar do fogo. Deu comida aos porcos. Ajudou Misericórdia a tomar conta do Homem-Que-Senta-Como-Pedra e varreu o chão.

À tarde, um jovem retornou carregando o irmão do Herói em seus braços, dormindo. O menino estava chupando o dedo. Nas suas bochechas e queixo havia marcas de frutas.

"Puxa, tivemos uma bela manhã", o jovem disse, após colocar Pequena Criança na cama. Herói e o homem sentaram-se à mesa, enquanto Misericórdia serviu suco gelado.

"Onde foi o camponês?" perguntou Herói.

O jovem deu um sorriso. "Foi achar o Rei. Lembra-se? Hoje é o Dia de Avistar.... Diga, você já ouviu um coral de abelhas? Hoje nós ouvimos. É impressionante! Zumbem em harmonia. Um velho abelhão estava desafinado, mas a rainha logo o silenciou".

Misericórdia deu uma risada.

"Aí a gente apostou corrida de barco. Havia cinqüenta patos, cinqüenta barcos e centenas de crianças. Os patos ganharam, mas o nosso barco veio em segundo lugar." O jovem deu uma olhada em volta e depois falou por detrás de sua mão. "Seu irmão e eu sopramos bem forte nas velas!"

Herói não sabia se acreditava nele ou não.

"Ah, sim! E a gente viu as uvas crescerem". Ele apontou para uma tigela de frutas na mesa. Herói tinha pensado que eram ameixas, mas então percebeu que eram uvas enormes já tiradas do talo. "E...a gente ficou olhando muito ¾ eu estava contando uma história. Desculpe, mas elas ainda estão boas. Prove uma".

Herói esticou o braço e pegou uma e deu uma mordida. Era deliciosa! Ele coçou a cabeça. Como a uva tinha crescido tanto?

O jovem ainda estava falando "...e você vai ficar contente ao saber que o seu irmão riu. Ele adora ver pessoas andando de ponta-cabeça". Fez uma massagem nos seus braços e ombros. "E pequena criança falou. Disse: 'Ó o ei' ".

Misericórdia estava à mesa com eles. "Muito apropriado", disse ela, "no Dia de Avistar, não acha?" Com isso ela se levantou, foi até o jovem, e plantou um beijo bem na sua testa. "Eu sabia que você poderia ajudá-lo. Obrigada, pelo seu tempo".

Herói olhou para Misericórdia. Quem era este jovem? O que tinha acontecido ao camponês?

"Não há de quê", o jovem disse. "Foi muito gostoso. Agora eu vou até o campo de treinamento. As crianças estão esperando por mim lá. Venha você também, Herói. Este dia é um dos melhores que tem".

E Herói logo percebeu que o jovem estava certo. Dia de Avistar era muito legal. O homem organizou gincanas e competições. Tinha corridas de três pernas (uma corrida em que duas pessoas ficam de lado, abraçados, com a perna de dentro de cada uma amarrada, formando assim uma perna em comum) e salto com vara, e esconde-esconde e pirâmides humanas e travessia do rio sobre pinguelas. Herói se pegou sendo absorvido no meio de todo esse clamor e regozijo. Ele descobriu que não havia lugar mais gostoso de se estar do que o lugar onde o jovem estava.

O homem ensinou todos eles a andarem de ponta-cabeça. As crianças se esforçaram para aprender. Seus cotovelos dobravam-se facilmente; suas pernas se recusavam a ficar para cima. Seus pés começavam a ir muito para a frente. O-o-o-o-pa! Caíam! Todos davam risadas.

"Está vendo! "disse o jovem a Herói. "Este exercício é ótimo para fazer crianças tristes rirem".

O jovem fez malabarismos com o Malabarista Palhaço; eles quase deixaram as laranjas caírem e se atrapalharam todo nos arremessos e quase não conseguiram catar os objetos que caíam. Todos as crianças riram, bateram palmas, e gritaram.

Todos tiveram sua vez na hora de pular corda e todos compartilharam suas bolinhas de gude e piões, etc.; e ninguém foi deixado de fora das brincadeiras, e ninguém foi escolhido por último.

As brincadeiras terminaram quando todas as crianças suadas passearam até o Lago Marmo, onde caíram na água fresca. Então molharam o jovem até ele ficar encharcado, e este fez o mesmo com eles. Herói teve de admitir que tinha sido uma tarde maravilhosa! Jogos e brincadeiras não eram tão ruins assim.

Até o jovem voltar para a cabana de Misericórdia com Herói, Pequena Criança já estava jantando. "Ó o ei!" ele gritou e veio correndo abraçar seu amigo.

Estas eram as primeiras palavras que Herói tinha ouvido seu irmão falar. Os olhos do menino mais velho de repente se encheram com lágrimas, e ele se voltou para o jovem e deu um obrigado meio engasgado.

Misericórdia serviu as uvas que eram tão grandes que dava vontade de rir só de vê-las, junto com um pouco de pão e queijo. Herói deu uma mordida na fruta e pensou que nunca tinha experimentado algo tão gostoso.

"Ó o ei", disse Pequena Criança sorrindo e já querendo brincar de esconde-esconde.

"Você realmente acha que ele viu o Rei?" disse Herói.

Misericórdia o olhou com surpresa e vagarosamente respondeu: "Sim!"

O rosto de Herói ficou contraído. Sua felicidade estava rapidamente se transformando em desapontamento. "Ué, por que o meu irmão pode ver o Rei e eu não posso?"

Misericórdia olhou para o jovem com uma pergunta nos seus olhos.

Quietamente, o jovem se encurvou e enrolou parte do cabelo de Herói no seu dedo. "Seu irmão pode ver o Rei porque ele é uma pequena criança, e crianças pequenas são os melhores nesta brincadeira. Os outros vêem o Rei porque eles crêem e a eles é dado o dom de ver. Aqui no parque, fé vem antes de ver".

"Mas será que eu vou ver o Rei um dia?" perguntou Herói.

"Você crê no Rei?" perguntou o jovem.

"Eu não sei. Eu acho que talvez creia, mas se eu só pudesse ver..."

"Bem, talvez um dia então verá", disse o jovem. Ele pegou uma outra uva gigante da tigela e a colocou na mão do menino.

Aquela noite, depois que todos na cabana do Cuidador tinham se aquietado, o Cuidador levou Herói para a Vila dos Rejeitados. Ao andarem, o som suave das ferramentas nos bolsos do homem trouxe conforto em meio à escuridão.

Cuidador explicou que, no "Dia de Avistar", muitos rejeitados ficam incapacitados de entrar na brincadeira de caçar o Rei. Alguns estão feridos. Outros cegos, e ainda outros estão se recuperando das suas doenças. Ao invés, o Rei vem até eles, conta histórias e canta. Ele traz tudo que é de bom, mesclado com o brilhar da lua e a noite fresca, até o nível deles, até que os corações dos desabilitados são confortados, porque o Rei está no meio deles.

Infelizmente, Herói estava muito afastado para ver o Rei aquela noite. Havia muitas pessoas tumultuadas ao redor dele. A noite estava cheia de sombras. Mas ele ouviu a voz de um homem se levantar no ar da noite refrescante. E logo, então, todas as pessoas estavam cantando juntas. Assim que aquela música se acabava, uma outra começava.

O menino se sentiu estranhamente em paz e pensou que aquela queimadura feia no seu rosto talvez não fosse tão importante assim.

Alguém começou a andar no meio das pessoas. Herói podia ver uma forma se aproximando dele, parando e conversando com cada uma daquelas pessoas sofridas. Ele tinha a esperança de que seria o Rei. Herói forçou os olhos para ver o que vinha na noite. Era...era ¾ só um mendigo! O homem estava usando um manto marrom com capuz.

"Herói?" o mendigo perguntou. "Herói? Você não me conhece?

Herói queria dizer: "Você não é nada mais do que um mendigo", mas algo na voz do homem o fez parar.

"É necessário que você me veja com os olhos do seu irmão", o mendigo disse. "Você precisa me ver como ele me vê".

O mendigo tirou o capuz e a capa. Herói tentou vê-lo com os olhos do seu irmão, que tinha avistado o Rei. E aí... ué ¾ sim, é claro, era o camponês que tinha vindo até a cabana aquela manhã e foi passear com Pequena Criança.

"Herói!" disse o camponês. "Consegue fazer isso?" Ele deu um pulo e ficou com as pernas para o alto e andou pela grama usando as mãos.

Herói não tinha gasto a tarde toda no campo de treinamento por nada. Ele colocou as suas mãos acima de sua cabeça e aí jogou o seu corpo para o chão, as suas mãos firmando os pés no alto. Ele andou desajeitadamente até ficar cara a cara com o camponês. Eles se olharam de ponta cabeça.

O camponês então retomou aquela face do jovem. Herói começou a rir. "Ah!" ele disse, justo na hora em que perdeu o equilíbrio e tombou no chão. "Você é o jovem...".

De repente, tudo fez sentido. Herói entendeu. Esse era o Rei. Esse mendigo. Esse camponês. Esse jovem atleta. Esse era o homem que fez seu irmão rir e o ajudou a falar. Essa era a pessoa que tinha derramado gozo em seu coração e o ensinou que jogos eram legais.

O Rei sentou-se na grama, ao lado de Herói. O Soberano estava caindo na gargalhada. Cuidador também. Herói podia ouvir o seu tinir. "Este é o Rei", disse o senhor idoso.

"Eu sei", disse Herói. Ele ficou de pé. Deu um pirueta, e plantou as mãos no chão. Andou desajeitadamente com os pés para o alto, balançando, envergado, se endireitando.

Aí ele olhou para os homens e disse: "Eu vejo o Rei!"

E realmente ele viu.

Então o rapaz descobriu que o jogo de Caça-Ao-Rei realmente é maravilhoso. Como todas as brincadeiras, ele deve ser feito com o coração de uma criança que crê, e está sempre pronta para ser surpreendida, porque o Rei pode usar muitos disfarces.


Obrigada e Have Fun!

sexta-feira, 8 de abril de 2011

Contos do Reino #7- O Padeiro Que Amava Pão

Isaías 53:4-5

Apesar disso, Ele colocou sobre Si mesmo as nossas dores, Ele mesmo carregou nosso sofrimento. E nós ficamos pensando que Ele estava sendo castigado por Deus por causa de Seus próprios pecados! A verdade, porém, é esta: Ele foi ferido por causa de nossos pecados; seu corpo foi maltratado por causa de nossas desobediências. Ele foi castigado para nós termos paz; Ele foi chicoteado ¾ e nós fomos curados!

1 João 4:21

Ele nos deu este mandamento: Quem ama a Deus, ame também a seu irmão.

Mateus 25:34-40

Então o Rei dirá aos que estiveram à sua direita: "Venham, benditos de meu Pai! Recebam como herança o Reino que lhes foi preparado desde a criação do mundo. Pois eu tive fome, e vocês me deram de comer; tive sede, e vocês me deram de beber; fui estrangeiro, e vocês me acolheram; necessitei de roupas, e vocês me vestiram; estive enfermo, e vocês cuidaram de mim; estive preso, e vocês me visitaram”. Então os justos lhe responderão: "Senhor, quando te vimos com fome e te demos de comer, ou com sede e te demos de beber? ... O Rei responderá: "Digo-lhes a verdade: o que vocês fizeram a algum dos meus menores irmãos, a mim o fizeram".


O PADEIRO QUE AMAVA PÃO

Era uma vez um Rei que passeava pelo mundo afora — aqui, acolá e em todo lugar. Ele se tornou pobre para ser como as pessoas que ele amava, e ele vivia entre os rejeitados para poder sentir a sua dor.

A padaria ficava escondida no coração da Floresta Profunda, perto da abertura onde as Grandes Celebrações eram realizadas. Era importante para o Padeiro Chefe que os pães fossem servidos às mesas do banquete direto do forno — quentinhos e fresquinhos. Ele tinha cuidadosamente planejado esta vila: as casas eram feitas de pedras, onde os padeiros moravam, assim como os muitos fornos no lado de fora — alguns grandes, outros pequenos, alguns com fogo bem forte e outros só com o necessário para colocar o carvão. Cada um feito para assar os vários tipos de pães de uma maneira perfeita.

Esse padeiro tinha se esforçado muito para tornar-se o chefe. O seu pai era padeiro e o seu avô também, mas ele tinha o seu próprio jeito genial de fazer pão. A sua massa era mais leve e mais nutritiva do que qualquer outra dos seus ancestrais. Todos os tipos de massas — trigo, centeio ou milho — com o seu toque tornavam-se deliciosas e davam água na boca.

Uma particularidade desse Padeiro Chefe era que ele gostava muito de fazer pães especiais para as Grandes Celebrações. Ele adorava trançar e enfeitar os pães. Adorava inventar receitas novas para pães doces. Amava também biscoitos, bolinhos, brioches, e croissants. Adorava ouvir as exclamações dos súditos do Rei quando, pomposamente, o desfile do banquete tinha início e os seus muitos padeiros carregavam em grandes cestos as suas criações.

"O Padeiro Chefe conseguiu de novo!" todos sempre exclamavam. "Ninguém consegue fazer pão que derreta na boca como estes!"

E o Padeiro Chefe sabia que o pão dava uma força especial; então, ele preparava alguns cestos de pães de centeio para alimentar aqueles que gastavam as manhãs nos campos de treinamento. Ele admirava os Atalaias e gostava de preparar pães nutritivos de abóbora e queijo para eles levarem nas suas vigílias.

Isso, entretanto, era o máximo que fazia. Ele se recusava a mandar cestos de pães para a velha Misericórdia, mesmo porque ela nunca havia pedido a ele isso. Ela tem um forno e receitas que são dela, pensou o Padeiro Chefe. E ainda mais, iria só encorajar ela e aquele seu marido doido, ficarem enchendo o Grande Parque com pessoas estranhas. Se esses defeituosos tinham tanta coisa de errado, devia ser que fizeram algo para merecerem isso. Com certeza não eram dignos de comerem os pães do Rei.

Um dia o Padeiro Chefe estava inspecionando a sua nova invenção, uma roda mecânica que amassava trinta pães de uma vez só. Genial, pensou.

Naquele momento, o Padeiro Chefe notou alguém se aproximando pela trilha que dava acesso à abertura, onde se localizava o complexo dos padeiros. Era uma mulher carregando um nenê em seus braços. Sua roupa estava toda rasgada.

O Padeiro Chefe procurou pelo seu assistente, mas notou que o menino estava abrindo uma massa para fazer uns docinhos. Todos os outros padeiros pareciam estar ocupados também: uns moendo trigo, outros medindo ingredientes e ainda outros de olho nos pães que estavam no forno. Eu mesmo vou cuidar desta intrusa, ele pensou.

Ele odiava interrupções. Para o pão sair bem, era uma questão de controle de horário. Tudo tinha que ser feito no momento certo. Um minuto antes ou depois e tudo poderia ser perdido.

"O que é que você quer?" ele perguntou à mulher, com uma voz áspera, ao encontrá-la na trilha.

Seu nené choramingou. Sua cabecinha não tinha força para levantar. "Por favor, senhor", a mulher respondeu. "Um pouco de pão. Nós nos perdemos no meio da floresta e não temos comido nada há dois dias".

Que estória bem inventada, pensou o Padeiro Chefe. Esse tipo de pessoa estava sempre procurando algo de graça, os preguiçosos. "Não dá prá você ver que estou fazendo as preparações para a Grande Celebração? Temos centenas de pães para fazer hoje. Não posso ser incomodado agora. Vai procurar Misericórdia. Ela está sempre dando comida a pessoas como você".

A criança choramingou de novo, e Padeiro Chefe pensou que a mulher estava tentando aparentar o mais patético possível. Condescendendo, desenhou um mapa na terra. "Este é o caminho até a Cabana do Cuidador", ele explicou.

Nem deu tempo para a mulher sair de vista quando o Padeiro Chefe percebeu que tinha algo se mexendo na floresta. Alguém estava se escondendo atrás de um arbusto. Um Queimador, talvez, tentando roubar um pouco do seu fogo. Algum tipo de ladrão, com certeza.

Padeiro Chefe fez de conta que iria descer a trilha em direção a floresta; mas de repente desviou-se e agarrou o molequinho que estava escondido atrás de uma árvore.

"Ahá!" ele gritou. "Exatamente o que suspeitava. Um ladrão tentando roubar um pouco de pão!" O menino estava tão sujo que o homem o segurou com o braço estendido.

"Não senhor! Não sou!" disse o menino chutando e esperneando. "Eu estava só tentando cheirar o pão. Tem um cheiro tão gostoso".

"E é só isso que vai fazer? Vai ficar só no cheiro? Não se atreva a entrar nas instalações da padaria. Não vou ter pessoas achando pulgas assadas no seu pão. Pode puxar o carro! Se eu te pegar por aqui de novo, vou te assar!"

Padeiro Chefe chutou o moleque algumas vezes, até ele começar a correr, e depois jogou algumas pedras em sua direção, enquanto ele tentava escapar pela trilha abaixo.

Nem deu tempo para o moleque sair de vista, quando as trombetas de aviso de perigo soaram das profundezas da floresta. Croi-e-e-e-e-e-e-e-e! Croi-e-e-e-e-e-e-ee! Era o sinal de perigo. O primeiro toque foi respondido por um outro e o grito arrepiante caminhava mais e mais à distância, na medida que cada Atalaia ecoava a mensagem.

Padeiro Chefe ouviu um tumulto nas instalações da padaria. Dois padeiros estavam segurando um estranho que se esforçava para livrar-se. O Padeiro Chefe pegou firme numa grande colher de madeira e se intrometeu na briga. Só de olhar dava para perceber que o homem tinha más intenções. O Padeiro bateu no homem com a grande colher de madeira—uma vez, duas, três vezes—e, finalmente, o estranho caiu ao chão, ferido.

"A gente pegou ele tentando roubar pão, senhor", explicaram os outros padeiros.

Roubar meu pão, pensou o Padeiro Chefe. Vou dar uma lição nele. Bateu no homem, repetidamente, até ele estar certo de que o homem não tinha nenhum truque sobrando. Finalmente, o estranho conseguiu ficar em pé e escapar pela floresta.

Croi-e-e-e-e-e-e-e-e! o sinal de alerta ressoou mais alto ainda.

De repente, um bando de homens e mulheres de capas azuis emergiram da floresta. Vários deles estavam carregando um homem que parecia estar morto.

"Prá trás! Abram caminho!" ordenou um Atalaia, quando os padeiros vieram correndo para ver o que tinha acontecido.

"Prá trás! O Rei está ferido! O Rei está ferido! Abram caminho! Abram caminho!"

Um grito de horror subiu pelo acampamento dos padeiros. A pessoa ferida era o Rei!

"Padeiro Chefe", um dos Atalaias chamou, "ajude-nos a cuidar do nosso Rei!"

"Aqui! Tragam-no para cá!" ele respondeu, disposto a fazer o que pudesse.

O Rei foi carregado até a casa de pedra do Padeiro e o deitaram na sua cama. Um fogo foi acesso na lareira. Uma vigia foi escalada para certificar-se de que nenhum perigo mais viesse, e um sinal foi dado pela floresta para notificar Misericórdia. Ela saberia como ajudar. As aves e as criaturas, a própria terra lamentavam a notícia terrível. O Rei está ferido...O Rei está ferido... O Rei...O Rei....

"Quem que fez isso?" perguntou o Padeiro Chefe. Mas ninguém parecia saber, pois o Rei não tinha dito uma palavra, desde que levantaram seu corpo inconsciente do chão da Floresta Profunda.

Se eu descobrir quem foi que feriu meu Rei, pensou o Padeiro Chefe, com alegria bateria neste inimigo com a minha colher de madeira. Ele se lembrou de como fizera um excelente trabalho com aquele estrangeiro que tentou roubar pão.

Misericórdia finalmente chegou. Ela se curvou por cima daquela forma sem vida e terrivelmente parada em cima da cama do Padeiro Chefe. Seus olhos se encheram de lágrimas. "Me dê seu machado," ela disse ao Atalaia em pé ao lado do Rei. "Rápido!" Chamas refletiam-se nas marcas do machado. Finalmente, ela achou as marcas que estava procurando. E logo depois, com seus olhos fechados, pressionou-as aos lábios e o coro veio: uma música suave e lenta de cura e paz.

A senhora idosa veio até a cama e sentou-se ao lado do Rei. Colocou uma das mãos atrás do pescoço do jovem Rei e a outra em seu peito. Ela encostou a sua testa na dele. Ali ela ficou, pela longa tarde e até anoitecer, com a música do machado ecoando no quarto.

Por toda aquela longa noite, os súditos do Rei o guardaram em seus corações. Cada um se lembrou do amor do Rei. E a floresta estava quieta. Grande Parque ficou na expectativa. Até a lua retardou seu curso. As pessoas que estavam no quarto do Padeiro Chefe notaram a testa limpa do Rei, sua face nobre, o cabelo castanho brilhando com reflexos de ouro, caindo até o travesseiro, e a pele pálida.

Finalmente, ao chegar a manhã, Misericórdia ficou em pé. Ela estava tão pálida quanto o Rei. "Ele estará bem", ela sussurrou. "A ferida foi superada. Dê algo para ele comer quando acordar, e me leve para um outro quarto".

Todos no quarto sentiram-se aliviados ao ouvirem as palavras de Misericórdia. Tiveram vontade de rir e chorar ao mesmo tempo. Em segundos, o grito dos Atalaias se espalhou pela Floresta Profunda. "Como vai o mundo?"

"O mundo não vai bem...".

"Mas o Reino vem! ... O Reino vem!".

Todos sabiam, do menor ao maior, que o Rei agora estava bem e o Reino intacto. Eles saíram para seus trabalhos com corações alegres, enquanto os passarinhos cumprimentaram a aurora.

Mais tarde, Padeiro Chefe trouxe uma travessa dos pães mais finos ao quarto onde o Rei estava descansando. Ele ficou aliviado ao encontrar o Rei sentado desajeitadamente na cama. Uma perna estava dobrada por baixo dos cobertores e seus braços por cima da cabeceira.

"O Senhor teve um tumulto na floresta?" perguntou o Padeiro, sem jeito, tentando ocultar a sua preocupação com a saúde do Rei. Ele colocou a travessa na cama e o aroma suave de biscoitos e pães doces encheu o quarto.

"É... mais ou menos", respondeu o Rei, abrindo um pão quentinho e cheiroso, recheado de frutas suculentas. Ele abaixou a cabeça. "Para a vida e tudo aquilo que a sustenta", ele disse baixinho. Ele deu uma mordida e continuou falando: "sempre disse: 'se vais entrar numa fria, melhor que aconteça perto do acampamento dos padeiros. O Padeiro certamente terá algo para comer. Ele te tratará como um rei' ".

Padeiro Chefe ficou vermelho com o prazer ao ouvir essas palavras. Tentando ser modesto, ele respondeu "Bem, senhor, o pão é do Rei".

O Rei deu outra mordida. Ele sorriu e numa voz suave disse, "É... O pão do Rei é para o povo do Rei, não é?"

O Padeiro estava arrumando o quarto às pressas, abrindo a janela, mexendo as brasas. "Sim Senhor", ele disse. Lembrou-se do Rei tão sem vida e imóvel. Ele se lembrou da longa noite de apreensão. De repente, a emoção de tudo aquilo que tinha acontecido apertou seu coração. Veio uma vontade forte de chorar. Ele olhou o Rei bem nos olhos. "Sabe, meu Senhor. Se eu soubesse quem foi que te feriu, eu daria uma nele, eu pegaria ele e..."

"Mesmo?" respondeu o Rei, e colocou de volta uma torta que estava em sua mão.

O quarto ficou silencioso. O Rei tirou a travessa de pães do seu colo, saiu da cama e foi até a janela. Padeiro Chefe observou as suas costas largas contra a luz brilhante da manhã.

Os sons de trabalhadores ocupados chegaram até eles. Padeiros cantando ao fazer a massa. Foles soprando. O bater das portas dos fogões. Pessoas chamando uma pela outra e a fragrância calorosa de coisas gostosas flutuava adentrando o quarto.

"Sabe, Padeiro", disse o Rei, virando os seus olhos para poder olhar para o Padeiro Chefe, "as minhas feridas não são iguais às de outros homens...".

Padeiro Chefe parou de fuçar. Ele estava na dúvida do que o Rei queria dizer.

"Quando uma pessoa do meu povo está com fome, Padeiro", disse o Rei, "eu também fico faminto. Quando uma pequena criança é machucada, eu também sofro. E até se o meu inimigo sente dor, eu o sinto na pele".

O Padeiro Chefe ficou encucado por um momento. Mas logo, como uma terrível cachoeira de memória, ele viu a face de uma mulher, quase desmaiando, que ele mandou embora. Ele viu os olhos de uma criança suja a quem ele tinha chutado e apedrejado. Ele ouviu o grito de um estranho quando batia nele vez após vez com a colher de madeira. Ele viu o corpo do estranho todo encolhido no chão; a dor nos seus olhos era semelhante ao olhar do Rei.

"Padeiro, é você que tem me ferido...sim, você".

O Padeiro caiu de joelhos: "Não eu, meu Senhor! Não eu!" Mas ele sabia que era verdade. Ele foi perseguido por um rosto e por olhos e por um grito. Ele tinha dado a um, terra, ao outro, pedras e ao outro, pauladas.

O Rei virou-se. A luz se irradiava em volta da sua cabeça. A luz da aurora atravessou o quarto e fez cair sobre a forma encurvada do Padeiro Chefe, a sombra do Rei.

"Meu Senhor, o que posso fazer? O que posso fazer?" chorou o Padeiro Chefe, sua cabeça encurvada até ao chão.

O Rei respondeu: "Alimente o faminto".

O Rei veio até o homem ajoelhado, em horror, no chão do quarto. Ele o levantou e o abraçou. "Alimente o faminto", ele sussurrou, "assim eu ficarei satisfeito...". Ele virou-se e saiu com passos largos, como se a morte nunca tivesse chegado perto.

Daquele dia em diante, o Padeiro Chefe fez questão que cestos de pães fossem levados à Vila dos Rejeitados, para todos os que não tinham como fazer o seu próprio pão. Mochilas de suprimentos de emergência foram deixadas em cada torre de vigia dos Atalaias para poder nutrir qualquer um que tivesse perdido o caminho, não importando se fosse bom ou mau de coração. Travessas de pães doces e tortas ficaram sempre à disposição no acampamento dos padeiros para dar as boas vindas aos visitantes. E biscoitos com o formato de animais, e enfeitados com cobertura de açúcar, foram colocados em caixinhas e enviados até a cabana de Misericórdia, para as crianças.

E o padeiro descobriu que alguém poderia amar o trabalho de suas mãos de maneira exagerada, e que devemos sempre amar mais o Rei. Amor pelo Rei é medido pelo amor que temos pelo seu povo. E, então, o Padeiro alimentou o faminto e o alimentou bem, para não ficar faminto Aquele que ele mais amava.


Obrigada e Have Fun!

Contos do Reino #6- O Desafio de Herói

2 Timóteo 1:7

Pois Deus não nos deu espírito de covardia, mas de poder, de amor e de equilíbrio.

1 João 4:16-18

Assim conhecemos o amor que Deus tem por nós e confiamos nesse amor. Deus é amor. Todo aquele que permanece no amor permanece em Deus, e Deus nele. Desta forma, o amor está aperfeiçoado entre nós, para que no dia do juízo tenhamos confiança, porque neste mundo somos como ele. No amor não há medo; pelo contrário o perfeito amor expulsa o medo, porque o medo supõe castigo. Aquele que tem medo não está aperfeiçoado no amor.

Efésios 4:22-24

Quanto à antiga maneira de viver, vocês foram ensinados a despir-se do velho homem, que se corrompe por desejos enganosos, a serem renovados no modo de pensar e a revestir-se do novo homem, criado para ser semelhante a Deus em justiça e santidade provenientes da verdade.

O DESAFIO DE HERÓI

Há muito tempo atrás, hoje e para sempre havia e há e sempre haverá um Cuidador que está eternamente ocupado em criar e cuidar de novas idéias. Mas as idéias de que ele mais gosta são aquelas que ele planta na mente de crianças.

"Nunca vou ter a coragem de ser um Atalaia", disse Herói um dia, quando estava observando o Cuidador criar flores no meio da Floresta Silvestre. O menino estava sentado com a sua mão cobrindo a sua cicatriz. As pessoas no Grande Parque nunca o xingavam, mas o menino estava certo de que já as tinha pego olhando para ele. Ele pensou que provavelmente falavam sobre ele quando ele não estava perto.

"Tenho uma nova idéia", disse o Cuidador. "Vamos tentar isso e ver se fica legal. Ta-doo!" O velho homem fez um gesto com as suas mãos em frente do seu rosto. Uma flor amarela brilhante explodiu da ponta do talo.

"Ta-daa..." disse Cuidador de novo. A flor mudou. Desta vez, ela ficou com um centro cor de laranja e as pétalas ficaram achatadas e arredondadas ao invés de pontudas.

"Não, não, não. Não fico bom. Não tá legal". Cuidador balançou sua cabeça. "Deixe-me ver..." Ele pensou mais um pouco, com a mão no queixo.

O velho de repente levantou a cabeça, com um brilho forte nos seus olhos cinzas. "Aha! Já sei!" Ele levantou seus braços. "Te-dee!"

A flor estremeceu e logo depois suas pétalas de dentro ficaram espetadas e as de fora ficaram lisas e arredondas na beirada!

"Ah-hah!" gracejou Cuidador. "Perfeito. Perfeito. Legal. Absolutamente lindo. Agora fique olhando rapaz! Fique olhando".

O velho ficou na ponta dos pés. Seus cotovelos estavam dobrados, mas erguidos; e aí ele começou a balançar os braços. As facas e tesourinhas e pazinhas em seu colete começaram a tinir. "Ta-dee! Ta-dee! Ta-dee!" Mais flores explodiram.

Cuidador balançou seus braços ainda mais. Ele apontou. "Ta-daa!" Pétalas e talos. "Ta-dee!" Um esguichar de amarelo. "Ta-doo!" O chão do bosque ficou atapetado com um tom de manteiga, cada flor delicadamente alaranjada no meio.

Cuidador girava e girava. "Ai, são lindas!" Ele sentou-se. "Lindas!" Ele colocou a mão na barriga e riu, só pelo prazer de criar.

Herói ficou abismado. Ele já tinha ouvido que o Atalaia Comandante e esse velho Cuidador eram a mesma pessoa. Os poderes contidos em cada um continuamente o surpreendia. Um tinha o poder de liderança; o outro tinha poder sobre a criação. Herói estava aprendendo a amar as duas faces, mas de maneiras diferentes.

Cuidador parou com seu divertimento, radiante. Ele limpou seus olhos. "O que você estava dizendo, rapaz?"

Por um momento, Herói não conseguia lembrar-se. Ele continuava vendo flores selvagens explodindo em sua mente. Aí ele se lembrou. "Eu disse que nunca vou ser corajoso". No fundo do seu coração Herói queria ser um Atalaia, um vigia nas torres, sempre cheio de coragem e verdadeiro. O menino olhou para baixo. Ele segurou com mais força ainda a sua mão cobrindo seu rosto. "Eu acho", ele continuou, "que você me deu o nome errado".

"Tolice", disse Cuidador. O velho homem ficou de pé. Ele encaixou sua barba de novo no seu cinto de videira, colocou de volta algumas ferramentas nos seus bolsos, e pegou seu chapéu do chão que era uma pequena horta brotando. Ele pegou o rapaz pelos ombros. Sua voz era baixa e bondosa. "Só um menino com um coração de herói teria desafiado o Encantador para poder achar um Rei. Sempre se exige coragem para crer".

Mas Herói sabia que ele só tinha procurado o Grande Parque porque estava com medo: medo do Encantador, da praça das cinzas, medo do fogo e de ser um órfão. Herói tentou fazer com que sua gola cobrisse a marca na sua face. Sua voz implorava: "Não dá para você me fazer corajoso? Será que não dá para você me dar algo para tomar ou comer que me faria corajoso? Você pode fazer qualquer coisa. Não dá prá você me transformar em um menino corajoso?”

Com ar sério, Cuidador abanou o seu dedo ao lado da sua cabeça. "Deixe-me ver...ummm...vamos ver...Eu sei! Eu Sei! Você precisa de um desafio. É, é isso aí, um desafio. Heróis sempre precisam de um desafio".

"Um desafio?" perguntou Herói. Ele esperava que não fosse nada como andar em cima de brasas vivas descalço ou ficar no meio de um círculo de chamas.

"O que poderia ser? Vamos ver..." A voz de Cuidador interrompeu seus pensamentos. "Socorrer uma princesa? Não, não, não! Só temos uma princesa em Grande Parque e ela não necessita de ser socorrida".

Herói pensou em Amanda e concordou com Cuidador.

"Que tal passar por aquilo que você mais teme?"

O coração de Herói começou a dar socos no seu peito. Ele pôde ouvir o som das chamas lambendo a madeira.

"Não, não, não" Cuidador respondeu com risadas ao ver o olhar de horror que tomou posse do rosto de Herói. "Todas as coisas em seu tempo devido: Vamos ver..."

Herói conseguiu respirar bem fundo. Que tal esquecer essa idéia toda de um desafio? Talvez ele acordaria uma bela manhã e se sentiria corajoso.

"Eu sei!" gritou Cuidador. Ele levantou seu dedo no ar. "Você deve enfrentar seu maior inimigo em combate justo!"

Quem que é o meu maior inimigo? pensou Herói. Queimadores? Suor frio começou a escorrer pelo meio das suas costas. Talvez houvesse algo terrível e escondido nas sombras mais escuras da Floresta Profunda, pronto para atacá-lo.

"Agora, vamos lá", disse Cuidador. "Eu tenho outros afazeres hoje. Sim, isso mesmo. Enfrente seu maior inimigo em combate justo".

Herói estava encucado. Que idéia boba. Um desafio. Como que isso iria torná-lo corajoso? Se ele conseguisse achar o seu maior inimigo, era provável que fosse maior do que ele. E aí quem é que iria derrotar quem? Talvez Cuidador estivesse fazendo uma brincadeira com ele. Se Herói pudesse achar Amanda, ela iria poder avisá-lo se esse desafio era verdadeiro ou se era só uma brincadeira nova. Nessas horas Amanda estaria nos campos de treinamento, preparando-se para a Grande Celebração daquela noite.

Herói nunca ia para as Celebrações. Ele tinha medo de passar pelo Círculo das Chamas Sagradas. Era uma das razões porque ele sabia que nunca iria conseguir ser um Atalaia.

No seu caminho para os campos de treino, o menino encontrou-se com o Lenhador, que estava cortando árvores na Floresta Silvestre. Raios da luz do sol refletiam tons dourados no seu cabelo, enquanto trabalhava. "Cuidado!" gritou o homem. "A árvore está quase no ponto de tombar". Houve um estouro leve quando a madeira começou a rachar, e aí o grande carvalho veio estalando e tombando até o chão. O coração de Herói ficou impressionado com o poder magnífico da queda.

"Oi! Você parece ser um rapaz forte. Dá para me ajudar um pouquinho?" o Lenhador perguntou.

Herói pensou que ele fosse gostar de ajudar. Ele tinha um desafio a cumprir, mas aquilo dava para esperar. Pegou firme com uma das mãos em uma ponta do serrote. A sua outra mão ficou colada no seu rosto para esconder a cicatriz feia.

"O, rapaz", disse o Lenhador, "vai precisar das duas mãos para esse trabalho; duas mãos fortes. O ritmo vai assim: você puxa e depois eu puxo. Você puxa e depois eu puxo, tá?" Era um daqueles serrotes que têm um lugar para pegar nos dois lados.

Herói mostrou com um movimento da cabeça que estava pronto. Ele colocou as duas mãos na ponta do serrote comprido. Ele se sentiu nu e exposto, agora que sua cicatriz estava descoberta.

Mas o Lenhador só sorria. Ele não parecia surpreso ou espantado.

"É isso jovem. Tem que usar duas mãos fortes".

O rapaz e o homem trabalhavam bem juntos. Herói pegou o ritmo. Puxa-solta-puxa. Puxa-solta-puxa. Puxa-solta-puxa. Herói sempre dava umas olhadas para o Lenhador. Ele viu seus músculos fazendo sua camisa esticar; ele viu a graça e a habilidade do homem ao fazer a ferramenta trabalhar contra a madeira. Era gostoso fazer o trabalho de homem. Herói esqueceu que a sua cicatriz feia estava se mostrando.

Entre uma das serradas, os dois descansaram. "Você é um dos homens do Rei?" Herói perguntou.

"Sim, eu sou", disse o homem ao afiar os dentes do serrote com uma lima. E depois ele piscou: "Um dos melhores dos homens do Rei".

Quando a árvore enorme tinha sido cortada em peças de tamanho adequado, o Lenhador agradeceu ao rapaz. "Você é uma boa ajuda. Espero não o ter atrapalhado de fazer algo importante".

"Ah, não", respondeu Herói, ao cobrir o seu rosto de novo com a mão. "Eu só estava indo cumprir um desafio". Ele se sentiu meio bobo falando isso e esperava que o Lenhador não fosse rir dele. "É para eu enfrentar o meu maior inimigo em combate justo".

O Lenhador deu uma risada. Ele colocou o serrote pesado nos seus ombros. "Parece ser uma das idéias de Cuidador". O Lenhador virou-se para começar a descer a trilha e Herói notou que ele estava assobiando e ficou olhando para ele. Aí o homem virou-se de novo de volta para ele e o chamou. "O jovem, se você vai sair em busca do seu desafio e encontrar o seu maior inimigo, seria melhor você usar as duas mãos". Ele apontou com o queixo para aquela que Herói estava usando para cobrir a sua face. Surpreso, o menino meteu as mãos nos bolsos. O homem sorriu, virou-se, e foi-se embora.

Herói ficou com as mãos nos bolsos, enquanto caminhava pela trilha em direção aos campos de treinamento.

Em poucos momentos ele emergiu da Floresta Silvestre. Centenas de pessoas estavam ocupadas aperfeiçoando as suas habilidades no campo de treinamento. Um coral estava ensaiando algumas músicas, um grupo de dançarinas estava medindo bem os passos de uma velha dança. Herói pôde ouvir o Mestre Ritmo cantando em voz alta, "Um-e-dois-e-três-e-". Acrobatas estavam aperfeiçoando os seus saltos duplos e mortais para cima e para baixo, vez após vez. Um homem estava se equilibrando numa corda bamba. Músicos afinavam seus instrumentos.

Herói pôde ver Amanda, junto com outros arqueiros, puxando uma flecha por um arco grande e mirando para um alvo distante. A maioria das vezes ela acertava o que estava mirando. Herói ficou impressionado mais uma vez. Como que uma menina poderia mirar tão perfeitamente? Amanda nunca iria precisar de ser socorrida; bem, pelo menos por ele não.

Os arqueiros pararam para descansar um pouco. Herói sentiu o calor do sol e o cansaço do trabalho na floresta. Ele notou que grandes mesas estavam sendo arrastadas para a sombra debaixo das árvores. Ele foi para ajudar e, de repente, lembrou-se da despedida do Lenhador. "...seria melhor usar as duas mãos..."

Herói se sentiu bobo. Ele tinha gasto a sua vida inteira, desde aquele dia da marcação e o acidente, com uma mão no rosto. Como foi bom trabalhar com aquele serrote, usando as duas mãos. Ele fez questão de ajudar a arrastar as mesas, com as duas mãos.

Ele carregou travessas de frios, tigelas de frutas e cestos grandes de pães redondos e pães de centeio. Eu tenho gasto a minha vida inteira desequilibrado, ele pensou, impressionado com a sua descoberta. As duas mãos são para trabalhar. O Lenhador está certo. Terei uma terrível desvantagem se me encontrar com o meu maior inimigo com uma mão colada no meu rosto!

Ele girou e olhou de frente para os olhos das pessoas ao seu redor: os acrobatas, os malabaristas, os palhaços. Ninguém apontou. Ninguém se recolheu de horror. Um rapagão bateu-lhe nas costas e soltou sua voz: "não fique parado aí. Há uma sede tremenda se manifestando aqui. Coloque o suco de maçã nos copos".

Então Herói obedeceu. Ele usou uma mão para equilibrar o fundo da jarra pesada. Duas mãos, ele pensou. Duas mãos é melhor do que só uma.

Ele decidiu levar um copo até Amanda. Fez seu caminho por entre malabaristas e grupos de dança até chegar ao outro lado do campo de treinamento.

Quando ela o viu chegando, Amanda riu. Veio correndo até ele e pegou o refresco gelado que já tinha criado gotas de suor no lado de fora do copo.

"Ah, obrigada Herói", ela falou após ter engolido o suco. "Você salvou a minha vida. Estava morrendo de sede".

Herói deu risadas ao ouvir isso. Pena que Cuidador não pediu para ele socorrer uma princesa, Herói pensou. Acabei de salvar a vida de uma, ela mesma disse.

"Almoce com a gente", Amanda sugeriu. "Só vai demorar uma meia hora".

O Dia começou a esquentar e Herói se esticou na grama cheirosa. Seus braços se sentiram fortes e exercitados. Ele cruzou os braços por trás da cabeça. Quem seria seu maior inimigo? Ele se sentiu pronto para enfrentar esse inimigo nesse dia.

O que é uma cicatriz? Ele perguntou para si mesmo. Muitas pessoas têm cicatrizes. E aí Herói teve um pensamento novo. Talvez a cicatriz tivesse sarado aqui no Grande Parque. Talvez tivesse quase desaparecido. Muitas coisas poderiam acontecer. Ele até poderia tornar-se corajoso.... Foi então que ele adormeceu à luz brilhante do dia.

Antes de Herói ficar totalmente acordado de novo, ele ouviu como se fosse uma brisa brincando. Era Amanda dando risadas. Herói tinha descoberto que sempre ouvia a Amanda antes de vê-la. "Acorde seu preguiçoso. Estou morrendo de fome. Está na hora de comer". Ela o cutucou com seu dedão do pé. Ele agarrou o tornozelo dela com sua mão.

Ela tentou escapar.

Ele usou a outra mão para pegar firme, e puxou.

Ela tropeçou e caiu, deu umas cambalhotas, conseguiu ficar em pé ainda, e saiu correndo em direção das mesas com Herói correndo logo atrás. Com as duas mãos ele conseguia até derrubar a Princesa Amanda.

Uma vez à mesa, a princesa apresentou Herói ao grupo dos Malabaristas. Eles o receberam com alegria. Todos se silenciaram e foi dado início a um cântico. Todos deram as mãos e Herói pegou nas mãos das pessoas ao lado dele. Eles cantaram "Ao Rei, ao Rei. Ao Reino e ao Rei". Herói se lembrou do Cuidador cantando flores em existência naquela manhã. Ele se lembrou do som que o serrote fazia ao cortar a madeira e do ritmo que criava. Ele sentiu o pegar forte nas duas palmas da mão. Duas mãos, duas mãos...

"Você vai vir para a Grande Celebração hoje a noite?" Amanda perguntou. "Hoje vai ser a noite de apresentações, do circo, da festa de nomear, do desfile e do banquete...tudo junto. É quando todos os súditos tornam-se o que realmente são".

Herói pensou sobre o Círculo de Chamas Sagradas que eram acesas em torno do Círculo Íntimo onde a Grande Celebração se realizava. Ele sabia que seria realmente corajoso, quando passasse pelo fogo.

Depois do almoço, as duas crianças subiram o Monte dos Pinhais só porque acharam legal. Deste ponto podiam ver tudo pelos campos de treinamento. De lá de cima eles tinham uma vista de todo o Grande Parque. Herói podia ver a Entrada do Portal de Pedras e a Cidade Encantada além, dormente. Ele podia ver a Cabana do Cuidador e a linha das torres de vigia dos Atalaias. Ele e Amanda notaram os seis lugares que tinham queimado na Floresta Profunda; agora, círculos pretos. Hectares de árvores foram queimados. Troncos feios apontavam dedos e braços para o céu. Herói lembrou-se do Lugar da Marcação. Ele cobriu seu rosto.

"Pare com isso!" gritou a pequena menina, irritada.

"Parar com o quê?" disse Herói surpreso.

"De cobrir o seu rosto com a sua mão, é feio!"

Rapidamente, Herói pegou nos ombros da Amanda, e virou a princesa para que ela olhasse bem no rosto dele. "Amanda?" ele perguntou. "O que você vê quando você olha para mim?" Talvez a sua cicatriz tivesse desaparecido. Talvez Grande Parque e a cabana da Misericórdia e Cuidador tivessem feito algo maravilhoso para ele. Ninguém do campo de treinamento tinha apontado para ele e nem deram risadas. Seu coração batia forte, com esperança.

A princesa o olhou direto nos olhos. "Eu vejo um rapaz elegante com uma velha ferida no seu rosto".

"Ah," disse Herói desapontado.

"Mas não é só isso que eu vejo", a menina continuou. "Eu também vejo um herói".

Ele balançou a cabeça. Deu as costas, para ela não poder ver a sua cara. Sua voz estava baixa. "Que herói, que nada. Era para eu cumprir um desafio hoje. Era para enfrentar o meu maior inimigo em combate justo. O dia já está quase acabando e eu nem sei quem meu maior inimigo é..."

"Essa idéia veio de quem?" perguntou a voz baixa e impudente atrás dele. "Foi Cuidador que te mandou neste desafio, não foi?'

Herói virou-se de novo para olhar para ela. De propósito ele enfiou as duas mãos nos seus bolsos. "É uma brincadeira? Eu não dou certo com brincadeiras".

Amanda sorriu. Sua voz estava bem baixa. "Não é nenhuma brincadeira. Ele me mandou numa destas coisas também. Cedo ou tarde, ele manda todos num desafio. E todos começam enfrentando seu maior inimigo".

Herói queria cobrir a sua cicatriz, mas ao invés disso empurrou suas mãos mais prá dentro dos bolsos ainda. "Você enfrentou seu maior inimigo?"

Ela mostrou com a cabeça que sim.

"Quem que era?"

"O mesmo que é com todos". Amanda riu ao ver a sua careta perplexa. "Eu não posso ficar por aqui o dia todo, respondendo perguntas. Eu preciso ir e me preparar para a Grande Celebração".

"Ah, então vai", disse Herói bruscamente. "O que é que está te segurando?" Ele lutou contra a vontade de dar-lhe um empurrão em direção ao pé do monte.

"Não consigo ir", ela respondeu com sua voz autoritária. "Você está pisando no meu vestido!"

Herói sabia que ele nunca iria entender. A Amanda estava fazendo de conta ou só tentando enganá-lo? A única coisa que ele podia ver era a sua camisa e seus jeans desbotados. Mas, em Grande Parque, tudo poderia acontecer. As coisas sempre eram mais do que pareciam ser. Ele manteve a sua postura, se sentindo um pouco estranho: "Eu só vou sair do seu vestido, se você me disser o nome do seu maior inimigo".

Em um movimento relâmpago, Amanda deu uma rasteira nele e o fez cair ao chão. As suas mãos tinham ficados presas nos seus bolsos, inúteis. Ele caiu de costas e a menina estava em pé em cima dele com olhos brilhantes de vitória.

"Você não sabe? Todos têm o mesmo maior inimigo: eles mesmos. Precisamos enfrentar nós mesmos, antes que possamos fazer qualquer outra conquista".

Com isso, ela desceu o monte na carreira.

Com as costas coladas ao chão, Herói ouviu outra vez as palavras do Lenhador. Duas mãos...duas mãos. E era verdade; se ele usasse as duas mãos para o resto da vida, isso iria forçá-lo a enfrentar todos e tudo, incluindo ele mesmo.

Então, o menino aprendeu que desafios podem ser jornadas interiores tanto quanto jornadas exteriores. Há um reino dentro de nós que precisa ser conquistado primeiro, antes que alguém se torne corajoso o suficiente para desafiar o mundo fora dele. Isto é um conceito que todos os cuidadores da alma conhecem.


Obrigada e Have Fun!